Palmadas em crianças não resolvem, conclui metanálise de pesquisas realizadas ao longo de 50 anos

palmadas em crianças

Além de não resolver, a *metanálise identifica evidências significativas que as palmadas e os castigos físicos trazem efeitos deletérios para os indivíduos. Ao longo desses 50 anos de inúmeras pesquisas, foram avaliadas mais de 160.000 crianças. Dentre 17 fatores negativos que poderiam resultar das punições físicas, 13 deles diferiram muito de zero, ou seja, trouxeram consequências negativas tanto no desempenho cognitivo como para a saúde emocional e mental.

No estudo publicado no Journal of Family Psychology, verificou-se que quanto mais as crianças são agredidas, maior a tendência delas a desafiarem os pais, apresentarem comportamentos antissociais, nível de agressividade aumentada, problemas cognitivos e transtornos mentais.

Apesar do assunto gerar controvérsia, a ciência da Psicologia já há algum tempo aponta para os efeitos negativos deste tipo de tática educacional. A teoria do reforço de Skinner nos indica que a administração de punições físicas deixa a desejar a longo prazo em termos de eficácia. O problema da punição enquanto método educacional é que ela precisa ser repetidamente administrada, o que se torna um grande problema quando estamos lidando com adultos. Sociedades repressivas não geram indivíduos autônomos, pois na ausência da punição a tendência é que o comportamento negativo se manifeste com maior frequência.

Em termos de cognição humana (e logicamente falando), não faz sentido bater em crianças enquanto técnica educacional ou de construção do caráter, já que seus efeitos se reduzem a resultados instantâneos que satisfazem alguma necessidade imediata do punidor, como por exemplo, silenciar uma criança ou fazê-las obedecer a algum comando, mas não desenvolvem a autonomia necessária a um adulto para que possa contribuir com todo seu potencial para a sociedade. Além disso geram sequelas. Conforme já dito, a punição precisa ser sempre reforçada para ser eficaz, e é impossível punir o tempo todo. Na ausência do punidor, o comportamento se manifesta.
Ex: Não falar palavrão na frente da mãe para não apanhar, mas falar muito na rua.

Vamos ao óbvio, adultos não resolvem suas diferenças com pancadas, sendo esse comportamento de exceção. O embate físico entre adultos é visto como descontrole, mas em função de crenças sociais muitas vezes é visto com naturalidade quando a violência é praticada do adulto para a criança. Muitos países já adotam medidas contra a violência infantil, sendo a Suécia talvez o caso mais conhecido. Por lá bater em crianças é visto da mesma forma como a agressão a adultos e elas tem a mesma proteção garantida por lei. Existe um projeto bem interessante que objetiva acabar com punições e castigos físicos contra crianças no mundo inteiro, The Global Initiative to End All Corporal Punishment of Children.

A sociedade brasileira ainda não superou este tipo de violência justamente por não ter se modernizado. Ainda estamos tentando superar questões básicas relativas ao respeito a Direitos Humanos e Liberdades Individuais, que são questões basilares de sociedades mais evoluídas. Em termos cognitivos, nossa sociedade ainda acredita (e não se vale do processo científico para a construção do conhecimento) na violência enquanto ferramenta de resolução de conflitos, apesar de alguns tímidos progressos que fizemos ao longo dos anos neste sentido. Ex: Lei 13.010/2014 (“Lei da Palmada”) e Lei 8.069/1990 (Estatuto da Criança).

Acreditamos tanto na violência e esta ainda é muito presente no Brasil, que somos o país que tem um linchamento público por dia. Dessa maneira fica fácil entender o porque da resistência que ainda temos em não agredir crianças.

Algumas pessoas podem discordar dos argumentos apresentados com o famoso “mas eu apanhei e ficou tudo bem comigo”. Uma grande falácia, pois uma análise um pouco mais atenta nos mostra uma série de problemas que os indivíduos podem desenvolver, como ansiedade, depressão, medos e limitações que estão ligados ao medo da punição ou a convivência com a punição, justamente os resultados encontrados na metanálise. A melhor escolha sempre será o equilíbrio emocional. Alguns também podem perguntar “Mas nem uma palmadinha pode?” Bom, isso seria o mesmo que perguntar se alguém pode te dar só um soquinho para que você a obedeça e você certamente não quer isso né? Quer ter sua integridade preservada. Então, nada de só uma palmadinha.

Concluindo, temos um problema de crenças arraigadas em nosso núcleo social. Crenças que precisamos mudar.

* Metanálise é um método estatístico que busca integrar resultados de pesquisas a respeito de um tema, utilizando-se de revisão sistemática da literatura, de maneira a produzir um corpo de conhecimento mais robusto.