O que é a Terapia Cognitivo-Comportamental?

Você já percebeu que duas pessoas podem passar exatamente pela mesma situação e reagir de formas completamente diferentes?

Imagine que duas pessoas recebam uma mensagem no WhatsApp dizendo apenas:

“Oi, bom dia. Preciso falar com você.”

A pessoa que vamos chamar de “A”, provavelmente mais ansiosa, imediatamente pensa:

“Ai meu Deus, o que será que aconteceu? Será que eu fiz alguma coisa errada?”

Caso seja uma mensagem do namorado ou da namorada:

“Será que ele(a) vai terminar comigo?”

Se for uma mensagem do chefe:

“Vou ser demitido(a)!”

Essa pessoa fica agitada, apreensiva e passa horas imaginando o pior. Começa a ter sintomas físicos, como tremedeira, dor de barriga, sudorese. Passa a imaginar a conversa que ainda nem aconteceu. Fica lembrando situações antigas, tentando descobrir onde errou. Cria vários cenários possíveis na cabeça, quase todos negativos. Ou seja, passa a vivenciar todo o roteiro do sofrimento.

Já outra pessoa, que vamos chamar de “B”, costuma interpretar as situações de forma mais equilibrada. Ela lê exatamente a mesma mensagem e pensa:

“Deve ser apenas algum assunto que precisa ser resolvido. Eu conheço essa pessoa e sei que ela costuma mandar mensagens assim, sem explicar muita coisa. Nunca é nada de grave. Se fosse realmente importante, provavelmente ela falaria comigo de outra maneira.”

Ela continua o dia normalmente e, quando conversa com a pessoa, simplesmente resolve a questão. Sem crise. Sem sofrimento desnecessário.

Perceba uma coisa importante. A mensagem foi exatamente a mesma. A pessoa que enviou a mensagem também foi a mesma. O que mudou foi apenas a forma como cada uma interpretou o acontecimento. Você percebeu que, até esse momento da história, absolutamente nada de ruim aconteceu? Mesmo assim, a pessoa “A” já estava sofrendo e a “B” nem se abalou.

Isso acontece devido à forma como nosso cérebro trabalha com as informações. Em outros artigos aqui do site explico esse funcionamento com mais detalhes e, durante a terapia, também ajudo meus clientes a compreenderem esse processo. Guarde essa ideia porque ela será importante daqui a pouco.

Esse pequeno exemplo ilustra um dos princípios fundamentais da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). É claro que a TCC vai muito além disso, mas acredito que você já começou a entender como ela funciona.

E você? Em relação ao exemplo acima, se identificou mais com a pessoa “A” ou com a pessoa “B”?

Mais sobre a Terapia Cognitivo-Comportamental

A Terapia Cognitivo-Comportamental, conhecida como TCC (e não, não tem nada a ver com Trabalho de Conclusão de Curso!), é uma das abordagens mais utilizadas por psicólogos em todo o mundo.

Trata-se de uma forma de psicoterapia baseada na compreensão de que nossos pensamentos, emoções e comportamentos estão constantemente relacionados. Ou seja, um influencia o outro o tempo todo. Isso significa que a maneira como interpretamos as situações influencia diretamente aquilo que sentimos e a forma como agimos. E isso pode causar uma grande confusão na nossa cabeça quando essas interpretações não correspondem à realidade.

Como você já percebeu no exemplo anterior, em muitos momentos da vida não conseguimos mudar os acontecimentos. Não podemos impedir uma perda, desfazer um erro do passado ou controlar as atitudes das outras pessoas. Realisticamente falando, nosso controle sobre a vida é pequeno.

Entretanto, podemos aprender a compreender como estamos interpretando essas situações e desenvolver formas mais equilibradas e funcionais de lidar com elas. É aí que nossa capacidade de intervir sobre o próprio sofrimento aumenta bastante. É exatamente nesse processo que a Terapia Cognitivo-Comportamental atua.

Não é o acontecimento que causa o sofrimento?

Quando enfrentamos uma situação difícil, normalmente acreditamos que o sofrimento foi causado exclusivamente pelo acontecimento. Porém, existe um passo muito importante entre o acontecimento e a emoção: a forma como interpretamos aquilo que aconteceu. Ou seja, a maneira como estamos entendendo e raciocinando sobre aquela situação.

Essas interpretações muitas vezes acontecem de forma tão rápida que nem percebemos que elas existem. Ainda assim, elas influenciam diretamente nosso humor, nossas emoções e nossas decisões. Por isso, duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e sentir emoções completamente diferentes.

Vamos voltar à nossa conhecida pessoa “A”.

Imagine que ela envie uma mensagem para um amigo e ele demore para responder.

Ela pode pensar:

“Ele deve estar bravo comigo.”

Ou:

“Fui inconveniente mandando essa mensagem.”

Ou qualquer outra interpretação distorcida do que está acontecendo. Como consequência, sente ansiedade, tristeza ou culpa.

Já a pessoa “B” interpreta a mesma situação de outra maneira.

Ela pensa:

“Ele provavelmente está ocupado e responderá depois.”

Nesse caso, sua reação emocional tende a ser muito mais tranquila. Percebeu novamente o que aconteceu? O fato não mudou. O que mudou foi a interpretação. A pessoa “A” acabou criando uma realidade paralela na própria cabeça e sofreu por algo que, até aquele momento, nem sequer havia acontecido.

Essa é uma das ideias mais importantes da Terapia Cognitivo-Comportamental. Quando conseguimos interpretar as situações de maneira mais realista e funcional, nosso equilíbrio emocional tende a melhorar e nossas decisões também costumam ser mais saudáveis.

Como funciona a terapia?

Durante as sessões, procuramos entender como você interpreta as situações que vive e como essas interpretações influenciam seus sentimentos e comportamentos. Esse processo não consiste simplesmente em “pensar positivo” ou convencer alguém de que tudo está bem.

Se fosse assim, seria muito fácil, não é mesmo?

A proposta da Terapia Cognitivo-Comportamental é compreender, junto com você, se determinadas formas de pensar estão contribuindo para aumentar o sofrimento e, quando necessário, construir maneiras mais realistas, equilibradas e úteis de interpretar essas experiências.

Para isso, investigamos sua história, suas experiências, a forma como você aprendeu a interpretar determinadas situações e como costuma reagir diante delas. Gosto de dizer aos meus clientes que fazemos um verdadeiro trabalho de detetive. Vamos reunindo pistas para entender de onde vieram determinados padrões de pensamento e comportamento e como eles continuam influenciando a vida atual.

Ao longo do processo, também apresento ferramentas práticas para que você consiga aplicar o que trabalhamos na terapia no seu dia a dia. Afinal, não adianta aprender estratégias complicadas que não cabem na rotina, não é mesmo?

Para quais problemas a TCC é indicada?

Embora seja bastante conhecida pelo tratamento da ansiedade, a Terapia Cognitivo-Comportamental pode auxiliar pessoas que enfrentam diversas dificuldades emocionais e psicológicas.

Entre elas, podemos citar:

  • ansiedade;
  • depressão;
  • síndrome do pânico;
  • fobias;
  • baixa autoestima;
  • estresse;
  • dificuldades nos relacionamentos;
  • transtorno obsessivo-compulsivo (TOC);
  • transtornos de personalidade;
  • neurodivergências, como TDAH e Transtorno do Espectro Autista (TEA);
  • e diversas outras situações que causam sofrimento emocional.

Mas acho importante fazer uma observação. A TCC não trata apenas diagnósticos. Muitas pessoas procuram terapia simplesmente porque estão vivendo um momento difícil, passando por conflitos familiares, problemas no relacionamento, excesso de estresse no trabalho, dificuldades para tomar decisões ou porque sentem que perderam a qualidade de vida.

Nem sempre existe um transtorno psicológico por trás do sofrimento. Às vezes, existe apenas uma pessoa tentando encontrar uma forma mais saudável de lidar com os desafios que a vida apresentou. Cada pessoa possui uma história única. Por isso, a terapia nunca é uma receita pronta.

O tratamento é adaptado às necessidades individuais, respeitando sua história de vida, seus objetivos, suas dificuldades e o momento que você está vivendo.

A TCC tem comprovação científica?

Sim.

Essa é, inclusive, uma das características que mais gosto na Terapia Cognitivo-Comportamental. Ela é uma das abordagens psicológicas mais estudadas no mundo e possui ampla evidência científica para diversos transtornos e dificuldades emocionais. Isso significa que ela não foi construída apenas com base em opiniões ou experiências pessoais. Existe uma enorme quantidade de pesquisas mostrando sua eficácia em diferentes situações clínicas.

Atualmente, a TCC é considerada uma das abordagens com maior respaldo científico e, para diversos transtornos, está entre as intervenções de primeira escolha nas principais diretrizes clínicas internacionais.

Mas quero fazer uma observação importante. Isso não significa que exista uma terapia que funcione para todas as pessoas em qualquer situação. Nem significa que basta procurar um psicólogo que utilize TCC e tudo dará certo.

O sucesso da terapia depende de vários fatores. Costumo dizer aos meus clientes que ele está apoiado em três pilares.

O primeiro é existir um bom vínculo entre cliente e psicólogo. Hoje em dia muita gente chama isso de “dar match”, e acredito que essa comparação faz bastante sentido. Você precisa sentir que pode falar livremente, sem medo de julgamentos.

O segundo pilar é identificar se você se adapta ao método de trabalho utilizado pelo psicólogo. Existem diferentes abordagens dentro da Psicologia e cada uma possui uma forma própria de compreender o sofrimento humano. Algumas pessoas se identificam mais com uma abordagem, outras com outra.

O terceiro pilar é o comprometimento do próprio cliente com o processo terapêutico. A terapia acontece durante a sessão, mas continua na vida. As reflexões, os exercícios, as mudanças de comportamento e a prática das estratégias aprendidas fazem toda a diferença. Nenhuma técnica produz resultados sozinha.

Será que a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ser uma boa abordagem para você?

Quanto tempo dura a terapia?

Essa é uma das perguntas recorrente dos clientes e é bastante importante.

E a resposta mais sincera que posso dar é: depende. Eu sei que essa resposta pode parecer frustrante, mas ela é verdadeira. Não existe um número de sessões que sirva para todas as pessoas, apesar dos famosos protocolos da TCC.

Imagine duas pessoas com ansiedade. Uma começou a apresentar sintomas há poucos meses. A outra convive com esse problema há mais de vinte anos. Seria razoável imaginar que ambas precisariam exatamente do mesmo tempo de terapia? Certamente que não.

Além disso, cada pessoa possui objetivos diferentes. Algumas desejam superar uma dificuldade específica. Outras aproveitam a terapia como um espaço contínuo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Tudo isso influencia a duração do processo. Mais importante do que estabelecer uma quantidade fixa de sessões é construir um tratamento que realmente faça sentido para quem está sendo atendido.

Meu objetivo nunca é manter alguém em terapia por mais tempo do que o necessário. Pelo contrário. Quanto mais autonomia você desenvolver, melhor. Nós, profissionais sérios e comprometidos com nosso trabalho, queremos ver você bem. Sempre digo aos meus clientes que um dos objetivos da terapia é fazer com que, aos poucos, você precise cada vez menos dela.


Perguntas Frequentes

A TCC tenta fazer a pessoa pensar positivo?

Não.

Inclusive, eu mesmo não gosto muito da expressão “pensamento positivo”. Costumo usá-la apenas em tom de brincadeira. Na prática clínica, nosso objetivo não é fazer a pessoa pensar de forma otimista a qualquer custo. Existem situações realmente difíceis. Seria artificial fingir que elas não existem. Também não faria sentido convencer alguém de que tudo está bem quando claramente não está.

O que buscamos é algo muito mais útil. Queremos desenvolver uma forma mais realista, equilibrada e funcional de interpretar as situações. Curiosamente, quando conseguimos fazer isso, o equilíbrio emocional costuma aparecer de maneira muito mais natural.

A terapia dá conselhos?

Essa é outra dúvida muito comum. E a resposta é: depende do que você chama de conselho.

O papel do psicólogo não é dizer como você deve viver sua vida ou tomar decisões por você. Se fosse assim, bastaria um amigo dar bons conselhos e a terapia deixaria de existir. Nosso trabalho é ajudá-lo a compreender melhor seus pensamentos, emoções e comportamentos para que você mesmo consiga tomar decisões mais conscientes.

Por outro lado, preciso fazer uma ressalva importante. Existem momentos em que a pessoa chega à terapia vivenciando um sofrimento psicológico muito intenso. Nessas situações, antes mesmo de iniciarmos um trabalho mais aprofundado de reestruturação dos pensamentos, costumo focar na redução dos sintomas mais incapacitantes.

Quando a ansiedade diminui, quando a pessoa volta a dormir melhor ou consegue recuperar um pouco do equilíbrio emocional, todo o restante do trabalho terapêutico passa a render muito mais.

A terapia muda minha personalidade?

Não.

Esse é um receio que algumas pessoas têm antes de iniciar a terapia. Elas imaginam que deixarão de ser quem são. Isso não acontece. A psicoterapia não tem como objetivo mudar sua personalidade. Ela busca ajudá-lo a compreender melhor seu funcionamento psicológico, identificar padrões que estejam causando sofrimento e desenvolver novas formas de lidar com eles.

Você continuará sendo você. A diferença é que provavelmente passará a compreender melhor seus próprios pensamentos, emoções e comportamentos. E isso costuma trazer muito mais liberdade para fazer escolhas.


Vamos conversar?

Se você chegou até aqui, provavelmente já percebeu que a Terapia Cognitivo-Comportamental vai muito além da ideia de “pensar positivo”. Ela é um processo de autoconhecimento, aprendizado e desenvolvimento de novas formas de lidar com as dificuldades da vida. Cada pessoa possui uma história diferente. Por isso, acredito que a terapia também deve respeitar essa individualidade.

Se você está enfrentando ansiedade, tristeza, excesso de preocupações ou qualquer outra dificuldade emocional e gostaria de entender melhor como a TCC pode ajudar no seu caso, entre em contato. Será um prazer conversar com você, esclarecer suas dúvidas e ajudá-lo a decidir se este é o momento de iniciar esse processo.